domingo, 14 de dezembro de 2008

Rilke

Há uns 13 anos, um professor de filosofia figura me fez um favor que nunca vou esquecer.

Foi assim: estava eu lá num dos bancos da Ufal, com essa cara amarrada que me acompanha até hoje. Ele sentou do meu lado e eu vomito: "ai, to deprimida". Ele: "deixa de frescura, menina. Amanhã vou trazer um negócio pra você".

No outro dia ele me aparece com três livros: Histórias Extraordinárias, do Edgar Allan Poe (esse eu nunca devolvi), Ejaculações Ereções e outras Pornografias, do Bukowski (foi o primeiro que eu li, hehe) e Cartas a um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke. É sobre esse último, na verdade, que resolvi escrever esse post.

O livro é na verdade uma coletânea de correspondencias que o Grande Poeta teria escrito a um jovem escritor que lhe pedia conselho sobre sua obra e que acaba recebendo de volta uma inestimável cartilha poética sobre como suportar a existência.

Assim que eu comecei a ler a primeira carta entendi tudo. Entendi o "deixa de frescura, menina", entendi a profundidade das angústias do mundo e o porque que palavras não dão conta da dor da alma e fazem com que qualquer sofrimento soe piegas. Entendi porque os poetas são poetas e, inclusive, porque eu não era poeta. :)

Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente.
(trecho da primeira carta)


Lembro que lia e choraaaaava e pensava egocentricamente: meu deus, isso foi pra mim!

Devolvi o livro com uma vontade enorme de ficar pra mim.
Passei todos esses anos procurando esse livro. Não parecia fácil encontrá-lo.
Até que semana passada, numa conexão demorada, solitária e angustiada num aeroporto que só tinha uma livraria aberta eu me deparo com ele num formatinho de bolso, por módicos 8 reais. Pra me salvar novamente. Meu coração chega bateu forte.

Rilke faz a gente enxergar com clareza a beleza da tristeza. E isso é bom. Há a depressão antes de ler Rilke e a depressão depois de ler Rilke.

6 comentários:

Elaine Mesoli disse...

"Rilke faz a gente enxergar com clareza a beleza da tristeza. E isso é bom."

Isso me lembrou um amigo em comum. Fúria. nunca vi alguém se sentir tão bem com a depressão.

Já eu fujo. Finjo que ela não existe, que não me acompanha desgraçadamente o dia a dia. E finjo estar feliz.

Milk Shakespeare disse...

Eu tô na metade do livro,´já já eu escrevo um comment dizendo o impacto que ele causou em mim.

;)

abraço

Olga Costa disse...

Achei você aqui!
Chegaram bem?
Beijos,
Olga

cindy disse...

muito má rsrsrsrs, você escreve como fala, parecia que estava te ouvindo falar isso...
bjo

Anderson Ribeiro disse...

Se soubesse disso antes, daria o que tenho pra você. hehehehehe. Desculpe, mas o tenho há um bom tempo... digamos... desde que trabalhávamos juntos na TV... Pode mandar a bronca agora!

L. disse...

senti a veracidade dos fatos como quem lambe os próprios dedos após comer um chocolate, procurando sentir o extremo doce daquilo que já não volta mais. Gostei bastante.